— Carlos Drummond de Andrade, “Casa Arrumada”.
Só nós dois na sacada olhando as nuvens querendo despencar, e eu penso em voz alta ‘as putas da Augusta vão gripar’.
_ E lucrar infinitamente.
Sento na sacada, te agarro com as pernas, te puxo pra perto.
_ O frio potencializa qualquer solidão…
_ E é aí que as putas da Augusta entram.
Pego teu cigarro, trago fundo, passo a fumaça pra tua boca, você recupera o cigarro.
_ Quantos dilúvios até a Terra se acabar?
_ Não sei. Você acha que vai acabar inundada?
_ I don’t know.
_ Vamos fazer uma aposta?
_ Que aposta?
_ Eu acho que o planeta vai acabar numa implosão. Se encolhendo, sabe? Tipo um big bang ao contrário, vai tudo voltar ao ponto minúsculo que um dia foi. E o mundo, as sociedades, vão regredindo lentamente até isso. Como uma fita que é rebobinada devagar.
_ Marx fala um pouco disso, que os sistemas avançam até seu apogeu e depois não suportam a si mesmo e se superam, se transformam em outra coisa.
_ Foda-se Marx. Eu não tô falando de superação, tô falando de retrocesso.
_ Eu sei.
_ E então? Qual teu palpite? O mundo acaba de que jeito?
_ Um grande terremoto inunda um continente inteiro, (de preferência América do Norte) os oceanos transbordam com o volume, o mundo acaba primeiro em fogo, destroços, cidades desmoronando… Depois em água.
_ Sobreviventes?
_ Não, nenhum. E na tua teoria?
_ Não, claro que não.
_ Se eu acertar o que eu ganho?
_ O melhor sexo da tua vida.
_ Mas isso eu já tenho.
Respondi por impulso, ele riu.
_ Quem disse que eu tava falando de você?
_ Você, quando percebeu que falou demais e ficou vermelhinha.
_ Você nem viu se fiquei vermelha, tá escuro.
Ele passou a mão pelo meu rosto, eu virei, a cidade pulsava sem pausa.
_ Tua pele fica quente, teu rosto se aquece. Eu tô perto o suficiente pra sentir. E o que eu ganho se acertar?
_ Caso contigo.
_ No apocalipse?
_ Não gosto desses termos, mas se você prefere… Sim.
_ Puta que pariu. Tenho que esperar o mundo acabar pra gente se casar?
_ Você devia gostar, vai faltar tempo.
_ Pra que?
_ Pra gente se odiar. Não é o que quem casa sempre faz? Em um momento ou outro sempre faz.
_ Vou rezar hoje.
_ Really?
_ Yeah.
_ Quer se converter antes do fim?
_ Não, vou pedir pro mundo acabar. Vou tentar antecipar.
_ Boa sorte.
— Sofia.
_ A gente tem quanto tempo de namoro?
_ Não lembro, não.
_ Como? Você não lembra?
_ Duvido que você sabe qual foi a primeira música que eu cantei pra você.
_ Mas a gente tá falando de data e não de música; músicas nos temos muitas…
_ Ah, então você não acha a nossa primeira música importante?
_ Eu não disse isso, mas se for pra falar de importância, se eu fosse mais importante você teria atendido o meu telefonema na semana passada.
_ Você sabe que eu não podia; tava ensaiando.
_ Até sua maldita banda é mais importante do que eu.
_ Seus livros são mais importantes do que eu.
_ Pink Floyd! Você cantou Pink Floyd!
_ Não! Eu cantei Bob Dylan.
_ Você cantou Bob Dylan quando disse que me amava na primeira vez, foi quando me acompanhou pra comprar o livro da Clarice Lispector…
_ Lembro! Até você disse que ela tinha um romance com o Fernando Sabino e eu disse que não…
_ Claro que teve!
_ Não teve, não. Agora vai dizer que Parmênides é melhor do que Heráclito!
_ A gente já discutiu essa história e você sabe que Heráclito é…
_ Incrível! Assim como A Insustentável Leveza do Ser é melhor do que Madame Bovary.
_ Nunca, meu bem, nunca! Flaubert foi o melhor da história!
_ Ah, claro, assim como Godard é melhor do que Truffaut, né?!
_ Godard só foi bom antes dos dois brigarem…
_ Mas bem que gostar da Anna Karina, você gosta.
_ E o que ela tem a ver com isso?
_ É como dizer que a inspiração não vale de nada pra criação.
_ Não ponha palavras na minha boca!
_ Chata!
_ Grosso!
Sentados na mesa, cada qual olhando para um lado.
Hugo pega um guardanapo e inicia uma série de dobraduras.
_ Pardalzinho…
_ O que quer?
_ Retardamos uns três anos, nessa última conversa.
_ Está me chamando de criança?
Hugo tenta segurar-lhe a mão, enquanto esta tenta puxá-la.
_ Um ano e três meses, Lívia.
_ Oi?
Lívia olha para sua mão e sob ela estava repousado um origami em formato de coração.
_ Nós, nós dois… Temos um ano e três meses de namoro.
Com os olhos marejados d’água, Lívia aproxima-se de Hugo; este ajeita-lhe os cabelos e logo em seguida percorre-lhe a ponta dos dedos por toda a face até pousá-los nos lábios de Lívia. Aproximando os lábios dos dela, toca-lhes e sussurra:
_ Eu a amo!
Beijam-se.
— Outono de Mim, “Curta Imaginário I”.
Onde encontrar um tema mais sugestivo para um quadro? Inicialmente, ele pode encontrar um pedestre sonhador ou filosófico, que observava com prazer os riscos formados pelas gotas de chuvas contra o fundo acinzentado da atmosfera, uma espécie de caneluras semelhante aos jatos caprichosos de filetes coloridos incrustados em vidro, ou os turbilhões de água branca que o vento faz rolar como uma poeira luminosa contra as telhas do teto, ou os caprichosos gargarejos que brotam por entre a espuma que escorre das calhas crepitantes, ou as mil e uma outras coisinhas, tão insignificantes quanto admiráveis, estudadas com delícia estéticas pelos desocupados – assim como eu.
Volta e meia, algum ser coberto de piedade atirava alguma moeda que restava no fundo do bolso em direção ao ancião cansado, mudo, enfardado com o vil preço de uma vida labutante, sem sequer estar ciente do porquê de sua atitude enganosamente bondosa ou até mesmo por desembargo de consciência. Ora, atirá-la de volta seria estupidez de minha parte, então, guardava-a dentro de uma dos poucos bolsos inteiros de minha veste.
Saudara o longo dia adiante com um lápis – no toco – e uma surrada folha de papel na mão.
Avistara monsieur Roc Hendolf. A sensibilidade do rapaz conservada pura, não desgastou-se exteriormente, ele permaneceu tão inocente, tão cheio de melindres que sentia-se profundamente ofendido por atos e palavras que a sociedade não dava a menor importância. Todavia, envergonhava-se de tanta suscetibilidade e procurava escondê-la sob a capa de uma falsa segurança; fazia troça com os amigos daquilo que em segredo admirava. Pobre coitado!… Achava-se enamorado daquela moça que permanecia sempre – digo, todas as noites – próxima a esquina daquele chalé escuro e sombrio da Rua 13. Um homem de melancolia doce, crente na espiritualidade do amor, mendigara sutilmente qualquer sentimento provindo dela.
Ela por sua vez, uma mulher que tinha horror ao romantismo, começou a duvidar de si mesma, tornando-se uma sonhadora. Sem ponderações, afirmo que era dona de uma beleza estonteante. Esbelta e delicada ao extremo, dona de pernas finas e elegantes; depois as costas, mesmo quando envolvidas por um xale ou um casaco de pele, revelavam-se jovens e voluptuosas de permeio às sombras, assim como o agrado daquele homem viçoso sempre vestido de terno e gravata que saíra todos os dias às seis da tarde daquele imenso prédio fosco onde funcionava um escritório de advocacia bastante conhecido, que por acaso, era o homem com quem se encontrava semanalmente. Ah, aquele homem… De poucas palavras, figura estereotipada, autoflagela-se “comprador de sonhos” exercendo seu ofício. Casado há anos com uma desfavorecida mulher que encontra-se nesse momento em casa cuidado dos trigêmeos enquanto ele, prepara-se para mais uma noite divertida em uma das ruas das quais, em normalidade, jamais freqüentaria. O que poucos sabiam era que, por baixo de um vocabulário polido, vestes finas, havia um homem amargurado mendigando algo que a vida não fora capaz de lhe dar.
Dentre nós quatro, todos tínhamos um ponto em comum: mendigávamos.
Ora, não virá então com a típica pergunta: “E o que tens a ver com isto, pessoa azêmola?” Respondo-lhe: O entusiasmo que move-me a observar casos alheios, é exatamente a estupidez a hipocrisia humana. Quem diria que desse “João que ama Maria, que ama Raimundo, que não ama ninguém” o mais feliz era o mendigo?
— Outono de Mim, “De Mendigo para mendigo”.
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o peso dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar.
— Chico Buarque, “Rosa dos Ventos”.